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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O carnaval de Recife, por Roberto Ghione

Autor: Roberto Ghione

O debate de política urbana chega ao carnaval do Recife. Pelo segundo ano consecutivo, o grupo Direitos Urbanos coloca o bloco na rua. A
denominada “Troça Carnavalesca Mista Público Privada Empatando tua Vista”  é uma provocação folião-crítica ao modelo que os autoconsiderados “donos da cidade” insistem em construir, apesar da resistência de grupos esclarecidos.

Imaginação, criatividade, irreverência e um consistente senso crítico utilizam o humor para catalisar energias e ridiculizar a verticalização excludente, que destrói a paisagem urbana, a memória da cidade e a convivência social, promovendo segregação, violência e imobilidade.

Em tempos de excessiva solenidade burocrática, irracional, agressiva e interesseira, as manifestações carnavalescas despertam as consciências dos cidadãos que, sem saber ainda, convivem em uma cidade colapsada, e os alertam acerca das manobras político-imobiliárias que sacrificam o interesse
geral em benefício de poucos privilegiados.

Aos poucos, os movimentos sociais que clamam por uma cidade justa, sustentável, integrada, inclusiva, digna, racional e humanizada ganham espaço e prestigio na mídia alternativa e nas festas e eventos populares. Aproveitar o carnaval para insistir na crítica é uma iniciativa inteligente, que promove o pensamento desde um espaço de liberdade e descontração. Parte da classe média do Recife, que mora nos edifícios vendidos pelo mercado imobiliário, começa a refletir acerca da conveniência social de habitar em unidades que provocam segregação e exclusão, ao mesmo tempo em que degradam a própria qualidade de vida urbana. O fato de ter destinado importantes esforços financeiros na compra de apartamentos em edifícios excludentes coloca as
pessoas no dilema acerca da condição de vítimas ou de cúmplices, segundo a posição ideológica no debate urbano que toma conta da cidade.

Inspirados na tradição dos bonecos gigantes de Olinda, os integrantes do bloco desfilam com fantasias de edifícios de três metros de altura, que reproduzem os “clichês” do receituário de formas arquitetônicas utilizadas pelo mercado imobiliário. As coreografias agrupam dois, cinco ou doze edifícios, em alusão aos empreendimentos polêmicos na cidade. Por momentos, as fantasias “empatam” a vista dos foliões na rua, da mesma forma que os edifícios reais empatam a vista, a ventilação, o bom senso e a convivência dos habitantes urbanos. Assim, arquitetura e urbanismo começam a ganhar o interesse da sociedade através da crítica incisiva, sustentada em sólidos argumentos urbanísticos, jurídicos e sociológicos, e canalizada através da ironia festiva.

Perante posições intransigentes que privilegiam interesses políticos e econômicos de determinados grupos, o humor se revela um instrumento eficaz para estimular as mudanças solicitadas pela sociedade esclarecida. O ambiente festivo do carnaval se apresenta como espaço e momento oportuno para brincar, manifestar, ironizar, debochar e promover, seriamente, a reflexão urbanística acerca do presente e do futuro da cidade. Viva o carnaval!
Autor: Roberto Ghione
Mini currículo: É arquiteto e diretor do IAB-PE



Fonte: http://iab.org.br/artigos/carnaval

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